O vermelho e o negro

o-vermelho-e-o-negroCerta vez, Ernest Hemingway (autor de Por quem os sinos dobram), recebeu um jovem escritor em busca de orientação. O conselho do futuro Prêmio Nobel de Literatura foi para o garoto ler os livros clássicos, pois eles já haviam passado pelo teste do tempo. Ao ser questionado, então, quais clássicos ele recomendava, Hemingway fez uma lista com 17 obras fundamentais, entre elas Anna Karenina, de Tolstói, Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, e o livro que é tema desta resenha: O vermelho e o negro, de Stendhal.

Stendhal é o pseudônimo do francês Henri-Marie Beyle, nascido em 1783, que acompanhou de perto momentos importantes da história do país, como a Revolução Francesa, e fez parte do exército de Napoleão Bonaparte em campanhas na Áustria, Alemanha e Rússia.

Só depois disso tornou-se escritor. O vermelho e o negro foi publicado em 1830, em meio à revolta que derrubou o Rei Carlos X. O livro, baseado em acontecimentos reais, conta a história de Julien Sorel, filho de um carpinteiro da pequena (e fictícia) cidade de Verrières que quer de qualquer forma mudar o seu futuro infeliz. Seu sonho era ascender socialmente como fez Napoleão, à base da espada, mas como os tempos eram outros, dedicou-se aos estudos de latim e a vida eclesiástica.

A partir deste diferencial, sua trajetória de vida muda completamente. Ele é escolhido para ser o educador dos filhos do prefeito da cidade, o Sr. de Rênal, e lá tem acesso a pessoas de outros níveis sociais. Enquanto sua erudição e polidez impressionam a todos, um romance inconcebível faz com que os planos do jovem sejam alterados e levados para o seminário na cidade de Besançon.

Após este período complicado (que também é a parte mais arrastada do livro), Julien é contratado para prestar serviços ao Marquês de La Mole, em Paris, e é lá que ele percebe com mais intensidade o desprezo por sua origem, as maquinações políticas e novamente um amor louco e proibido. Dessa vez é com Mathilde, a filha do Marquês, moça jovem, bela e de caráter duvidoso. Este relacionamento revela-se cada vez mais errático e inviável, em meio a um turbilhão político que precedia a Revolução de Julho de 1830. E as consequências dele mostram-se irreversíveis, fato que dá um fôlego interessante ao final da leitura.

O vermelho e o negro é um livro muito bom. A descrição é limpa, mas ainda assim com um toque de classe pertencente aos grandes da literatura. Uma característica interessante da narrativa é que ela é feita com ênfase nos pensamentos de Julien: os seus sentimentos, análises e planos são expostos com bastante frequência, proporcionando ao leitor a opção de concordar ou discordar de suas ideias. Isso porque ele não é um herói, mas um homem ambicioso, calculista, que ao mesmo tempo em que despreza a alta sociedade, quer fazer parte dela a todo custo.

Apesar de toda essa complexidade, Stendhal soube conduzir muito bem a sua história. Vale a pena seguir a dica de Hemingway e ir atrás de obras desta estirpe.

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O caminho estreito para os confins do Norte

downloadO ser humano evoluiu em meio à guerra. Por mais que essa carnificina não faça sentido para a maioria das pessoas, ela sempre se fez presente – e às vezes necessária – no desenvolvimento das civilizações. Por meio das guerras, as sociedades foram moldadas até chegarem ao ponto que vemos hoje.

A Segunda Guerra Mundial é a mais recente e emblemática da nossa geração e a que tem o maior número de registros e informações disponíveis às pessoas. Por meio dos estudos, filmes, documentários e livros, recordamos as atrocidades cometidas pelos nazistas e as batalhas travadas na Europa.

Apesar disso, recebemos poucas informações sobre o que ocorreu do outro lado do mundo. O Japão era aliado da Alemanha e da Itália e protagonizou batalhas terríveis nos países vizinhos – até se render após bombas atômicas americanas destruírem Hiroshima e Nagasaki. Em O caminho estreito para os confins do Norte, o escritor australiano Richard Flanagan mostra ao Ocidente esse lado menos conhecido da Segunda Guerra.

O pai de Richard, Arch, serviu a Austrália na guerra (que fazia parte dos Aliados) e foi capturado por soldados japoneses. Ele e seus companheiros foram obrigados a trabalhar em condições desumanas na famosa “Ferrovia da Morte”, que visava ligar o Sião (atual Tailândia) à Birmânia (atual Mianmar). Richard cresceu ouvindo as histórias do pai deste período sombrio e se inspirou a criar um romance sobre o tema.

Não foi fácil. O escritor se aprofundou nas pesquisas e entrevistou muita gente, inclusive os guardas japoneses que eram odiados por seu pai. Ao dizer a ele que eram senhores gentis, Arch imediatamente apagou qualquer lembrança da guerra e nunca mais tocou no assunto. No dia que Richard entregou a versão final à editora, seu pai faleceu, aos 98 anos.

A obra conta a história do cirurgião tasmaniano Dorrigo Evans, capturado junto ao seu batalhão pelo exército japonês e obrigado a construir a “Ferrovia da Morte”. Lá, ele convive com a brutalidade da guerra e as condições terríveis impostas aos prisioneiros. A vivência diária com doenças, sujeira, jornadas de trabalho estafantes, pouca comida e, claro, mortes, faz com que os sobreviventes sejam considerados verdadeiros heróis. E é assim que ele é tratado ao fim da guerra, já idoso e atormentado por suas lembranças do passado.

Lembranças que voltam também aos episódios ocorridos em sua vida um pouco antes da guerra. Em meio à agitação de um confronto iminente, ele – já casado – tem um romance arrebatador com Amy, a esposa de seu tio.

O livro transita nesses três períodos da vida de Dorrigo, fazendo com que um leitor desatento possa ter dificuldades em compreender em qual época está, mas nada que prejudique a leitura de uma forma geral. Pelo contrário, Flanagan é um excelente contador de histórias e sabe conduzir bem a narrativa em seus diferentes tempos.

Um fator que chama a atenção no livro é a forma que ele apresenta os soldados japoneses. Sua intenção de humanizá-los ao invés de apresentá-los apenas como carrascos mostrou-se eficaz. Os soldados, por exemplo, apreciam poesia, algo que soa estranho comparado às atitudes que tomam nos campos de trabalho. O título do livro, inclusive, é uma citação de um poema de Bashô, escrito em 1694.

O caminho estreito para os confins do Norte é uma obra forte, com um enredo interessante e personagens mais humanos, reais (sem mocinhos ou bandidos). Não é por acaso que ganhou o Man Booker Prize 2014, um dos maiores prêmios literários do mundo.

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Os fantasmas da São Paulo antiga

os-fantasmas-da-so-paulo-antiga-miguel-milano-634111-MLB20482338053_112015-F*Colaboração especial de Abrahão de Oliveira

A cidade de São Paulo é um centro de histórias curiosas e acontecimentos extremamente importantes para o Brasil. Apesar disso, é uma metrópole que tem suas “lendas” pouco divulgadas. Nesse curioso nicho de histórias, surge o livro de Miguel Milano.

O autor viveu entre os anos de 1885 e 1971, sendo um versátil profissional que exerceu diversas profissões: foi matemático, ator, cineasta, redator de livros didáticos e historiador. A obra de Milano registra as histórias ouvidas pelo autor, na cidade de São Paulo, na segunda metade do século XIX.

Além de resgatar curiosos “causos”, como o fantasma que habitava o relógio do Largo São Francisco e a “Louca dos Campos Elíseos”, o livro também serve como um verdadeiro guia da cidade de São Paulo durante o século XIX. Diversas ruas que mudaram de nomes e acontecimentos praticamente esquecidos propiciam uma verdadeira viagem no tempo e um conhecimento ímpar da cidade.

Aos amantes da leitura histórica da cidade, o livro é uma peça importante de conhecimento e contexto da metrópole. Uma leitura fácil, simples, bem desenvolvida, em um volume de 176 páginas.

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A improvável jornada de Harold Fry

imagesO ser humano precisa de fé. Não falo de uma fé religiosa, mas aquela fé que o faz acreditar diariamente que a vida vai melhorar, que o seu sonho será realizado ou que simplesmente sirva como apoio no combate às adversidades diárias. Crer em algo que não se materializa ou se comprova pode parecer sem fundamento muitas vezes, mas é um dos melhores combustíveis para seguirmos lutando.

É justamente esse tipo de fé que move o personagem principal deste livro. Já na velhice, Harold Fry vive uma vida ordinária em Kingsbridge, extremo sul da Inglaterra. Amargurado por um passado cheio de culpas, vê lentamente os dias passarem com pouco entusiasmo e a relação com a esposa, Maureen, há tempos é desprovida de afeto.

Tudo muda certa manhã, quando recebe uma carta vinda de uma casa de repouso em Berwick-upon-Tweed, norte do Reino Unido, já na Escócia. Nela, havia o recado que a amiga de Harold, Queenie, estava à beira da morte por causa de um câncer. Sem saber como reagir, o protagonista escreve uma resposta sóbria de lamentação e sai para postar no correio.

Neste ponto ocorre a grande reviravolta da história: Harold Fry passa por um, dois postos do correio e não para. Segue caminhando sem rumo, pensando em seu passado, o relacionamento fraternal com Queenie e o casamento com Maureen. Horas e alguns quilômetros depois, decide seguir a pé até a casa de repouso em que está sua colega que não vê há 20 anos e tem uma dívida de gratidão.

Ele acredita que enquanto caminhar, ela vai viver. O reencontro precisa acontecer e, segundo a sua fé (voltando ao assunto do início do texto), é a sua caminhada que a impede de morrer. Apesar de sua decisão ser fundamental ao livro, é pouco verossímil um senhor de idade sedentário caminhar por mais de 1000 km sem carteira, celular, roupas apropriadas e experiência.

O enredo se desenvolve conforme a caminhada de Harold. Aos poucos, a autora Rachel Joyce, vai intercalando o presente e o passado, revelando os segredos que tanto afligem os personagens. Ela também tem o cuidado de desenvolver as mudanças de comportamento e percepção do protagonista. No início, Harold Fry era um velho resmungão e retraído, mas, com o passar de sua jornada, tornou-se uma pessoa mais aberta e menos julgadora.

Este trecho eu achei muito interessante e representa bem a gradual mudança de pensamento do protagonista: “Harold não poderia mais passar por um estranho sem reconhecer o fato de que eram todos a mesma coisa e, ao mesmo tempo, únicos, e que era este o dilema de ser humano”. Nas minhas viagens por aí, sempre pensei nisso. Via pessoas de diferentes lugares e culturas, cada uma com as suas particularidades, mas todas com os mesmos problemas, sonhos e vontades. Esse paradoxo é curioso e sempre me faz pensar como o ser humano é igual e diferente ao mesmo tempo.

Se por um lado as descobertas, o movimento, a viagem e o conhecimento adquirido por Harold torna a obra interessante para o meu gosto literário, por outro, o relacionamento com a esposa, as angústias do passado e a reflexão de uma vida cheia de mágoas faz o enredo ficar pesado e um pouco cansativo. No fim das contas, uma história triste.

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Stoner

2015-784472939-capa-radiolondres_stoner_johnwiliams.jpg_20150121Uma ótima surpresa! Confesso que nunca tinha ouvido falar em John Williams até receber a recomendação deste livro, cuja sinopse não anima muito. Por isso, para que alguém se interesse por sua história, é preciso que a indicação seja elaborada, pois um simples resumo pode fazer com que pareça trivial. No meu caso, as indicações foram tão enfáticas e positivas que eu decidi ler. Sábia decisão.

Stoner foi lançado em 1965. Sua tiragem de dois mil exemplares foi vendida e depois caiu no esquecimento. Na época, Williams escreveu à sua agente literária a seguinte análise: “… a única coisa de que estou certo é que é um bom romance; em algum momento, talvez seja considerado realmente um bom romance”. Sua previsão estava correta. Em 2003, ele foi relançado, sem despertar muito interesse do público. O cenário mudou três anos depois, quando o jornal The Guardian publicou uma crítica bem positiva.  A famosa crítica francesa, Anna Gavalda, também se encantou e sugeriu uma versão em francês, lançada em 2011.  A partir daí, sua fama foi crescendo, ganhou novas traduções e “estourou” no mundo inteiro.

O enredo aborda a vida de William Stoner entre as décadas de 1910 e 1950. Filho de agricultores humildes, o protagonista tem a oportunidade de estudar Agronomia na Universidade do Missouri (onde o autor John Williams lecionou). Em seu segundo ano como estudante, ele te tem uma “epifania” durante uma aula e decide mudar radicalmente de área, dedicando-se à Literatura.

Esse é o único grande ponto de mudança em sua vida. Ao concluir os estudos, torna-se professor da mesma universidade até o momento de sua morte, décadas depois. É difícil acreditar que um enredo como esse poderia reter a atenção do leitor até o fim e ser considerado um grande romance.

Mas o que impressiona na obra é a forma de narrar extremamente sóbria, linear e ao mesmo tempo cativante de Williams. Ele aborda os pequenos problemas diários de uma pessoa comum em questões interessantes e que fazem o leitor se identificar rapidamente.

Situações cotidianas, como o desgaste de um casamento fadado ao fracasso, as intrigas e complicações no trabalho, o amor impossível extraconjugal e as dificuldades financeiras de uma família  são contadas de forma hábil, honesta e límpida pelo autor. E é essa força na narrativa que faz a obra ser tão peculiar.

Além de fascinante, Stoner é surpreendente. É o livro ideal para quem busca uma leitura diferente e em evidência, mesmo que de forma tardia. Infelizmente, o autor não viu sua obra fazer sucesso, mas felizmente ela saiu de seu injusto ostracismo a tempo de conseguirmos apreciá-la.

 

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Os irmãos Karamázov

downloadA Rússia é, sem dúvidas, um reduto de ótimos escritores. Muitos dos grandes clássicos, sobretudo do século 19, foram escritos por autores deste país e até hoje são aclamados e considerados fundamentais na literatura mundial. Eu já tinha tido a oportunidade de ler Nabokov e Tolstói, por exemplo, mas sei que há um longo percurso pela frente para me aprofundar nesta escola tão importante. Chegou, então, a hora de ler Dostoiévski. Escolhi Os irmãos Karamázov, graças a uma belíssima edição de capa dura lançada pela editora Martin Claret, apesar de suas mais de 900 páginas.

A história gira em torno dos conflitos da família Karamázov (como é de se supor) e se passa em uma pequena cidade fictícia na Rússia, onde praticamente todas as pessoas se conhecem. O patriarca, Fiódor, é um autêntico corrupto e malandro que fez a sua vida com o dinheiro dos dotes de suas duas ex-esposas. Com a primeira, teve um filho: Dmítri. Com a outra, mais dois: Ivan e Alexei.

No enredo, as desavenças financeiras entre Dmítri e seu pai ganham proporções maiores e envolvem também o amor de uma jovem desonrada. As tensões aumentam até o ponto crucial da obra, em que acontece uma tragédia sem volta, causando comoção em toda a cidade e marcando para sempre o destino da família.

Apesar de o conflito ser o fio condutor da história, a obra apresenta um caráter bem mais profundo. Por meio das características dos familiares e das pessoas que vivem na pequena cidade, Dostoiévski analisa e traça um perfil da sociedade russa. Dmítri é parecido com o pai, porém honrado; Ivan é um intelectual que sofre complicadas perturbações; Alexei é puro e religioso.

A religião, inclusive, é tema recorrente no livro. Antes da tragédia, Alexei vivia em um mosteiro, onde recebia muitas lições de seu mestre. Assim, muitas explanações longas e confusas são feitas no decorrer da narrativa sobre o tema, fato que às vezes cansa e distrai um pouco o leitor. Mas nada que tire seu brilho e importância.

Os irmãos Karamázov é um livro grandioso e complexo, mas que merece ser lido em algum momento da vida. Foi o último escrito por Dostoiévski e onde ele juntou todo seu talento e experiência. Não é por menos que Freud e Einstein se derreteram pela obra.

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Relato de um náufrago

relato-de-um-naufragoNeste blog, nunca escondi a minha admiração pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 por suas obras fantásticas, como Cem anos de solidão e O amor nos tempos do cólera. O que pouca gente sabe é que ele era jornalista em sua terra natal antes de se aventurar pelos caminhos do realismo mágico, que encantou o mundo posteriormente.

Em 1955, quando era apenas um repórter do jornal El Espectador, um destroier colombiano saiu dos Estados Unidos rumo a Cartagena, na Colômbia. Segundo informações oficiais, vindas do governo ditatorial de Gustavo Rojas Pinilla, oito tripulantes haviam naufragado em uma tormenta no mar do Caribe. Apenas um deles, Luis Alexandre Velasco, foi encontrado vivo (ou semimorto) na costa, após 10 dias praticamente sem comer e beber sobre uma pequena balsa.

Velasco foi considerado herói nacional e recebeu todos os tipos de honrarias por isso. Enquanto estava no hospital, apenas jornalistas a favor do regime de Pinilla tinham acesso a sua história de sobrevivência. Meses depois, já esquecido pela mídia, Velasco entrou na sede do jornal El Espectador disposto a contar novamente a história do naufrágio, que já era mais do que notícia velha. Mesmo cético, o editor-chefe sentiu que havia algo a mais ali, e encaminhou o marinheiro a Márquez para 20 sessões diárias de seis horas de entrevistas.

Foi aí que tudo mudou. O rapaz revelou que não houve tormenta, e sim um vento forte capaz de desamarrar diversos produtos comprados nos Estados Unidos – geladeiras, televisores, etc. – e arrastar os oito tripulantes. Acontece que um destroier não pode levar este tipo de carga, caracterizando contrabando. O relato foi publicado no jornal, dividido em 14 partes, gerando extremo desconforto ao governo. O jornal foi fechado e Márquez iniciou o seu exílio em Paris.

O livro Relato de um náufrago é a coletânea completa dessas publicações que mexeram com o governo colombiano. Independentemente do caráter político, é uma história deliciosa de se ler. É tão peculiar, que dá a impressão de ser mais uma narrativa fantástica tirada da mente criativa de Gabriel García Márquez. Ele, porém, apenas transcreveu o relato pormenorizado do sobrevivente, que era um exímio narrador, segundo o próprio jornalista.

A obra, em primeira pessoa, refaz toda a trajetória da tripulação do destroier e dos temores de Velasco em voltar para casa no imprevisível mar do Caribe. O protagonista, arrastado pelos produtos contrabandeados, lutou pela sobrevivência ao lado de seus colegas desafortunados, mas foi o único que conseguiu alcançar uma balsa. Infelizmente, o mar em revolta levou todos os outros. A partir daí, começou a saga desesperadora e angustiante dele em mar aberto, com poucas perspectivas de um resgate ou de encontrar terra, mas com muita esperança de um milagre.

Ao longo de 10 dias, o sobrevivente ficou à deriva e teve encontros com tubarões, buscou comida e teve momentos de desespero e o desamparo ao pensar em seu resgate improvável. Ao mesmo tempo que a narrativa é leve, há muita carga de tensão devido à situação do rapaz. Não esperava um livro tão bacana, já que pouco se fala desta publicação em comparação às outras mais conhecidas do autor.

Relato de um náufrago merece ser lido pelos fãs do escritor tanto pela narrativa fantástica – porém real – quanto pela importância histórica que tem.

Confira abaixo outras resenhas de livros de Gabriel García Márquez:

Memórias de minhas putas tristes

Ninguém escreve ao coronel

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Quarto

quartoUm bom livro me fascina na mesma proporção que um bom filme. Ao ver a lista de indicados ao Oscar de 2016, decidi assistir todas as produções que estavam concorrendo. Foi aí que eu tive uma primeira grata surpresa. O filme O quarto de Jack, despretensioso e pouco comentado em relação aos concorrentes me impressionou de tal forma que torci por sua vitória.

Pouco tempo depois, tive a minha segunda grata surpresa: o filme era baseado no livro Quarto, da escritora irlandesa Emma Donoghue. Em rápida pesquisa, constatei que era um best-seller e havia sido eleito o melhor livro do ano pelo The New York Times. Sob essas credenciais não tinha outra escolha senão lê-lo, contrariando a minha regra pessoal de nunca ler a história depois de ter assistido ao filme (exceção concedida apenas ao Poderoso Chefão, até então).

Antes de comentar do que se trata a obra, já adianto que é impossível fazer isso sem dar um grande spoiler que, creio eu, não afeta em nada as emoções que fatalmente o leitor irá sentir.

Seguindo em frente, o enredo é dividido em duas partes e conta a história de Jack e sua mãe. Logo de início o leitor percebe que ambos vivem juntos presos dentro de um quarto. Eles passam os dias fazendo atividades físicas, brincando, vendo televisão, cozinhando, etc. Aos poucos, revela-se a história de que a mãe fora sequestrada sete anos antes, quando voltava da faculdade. O menino, de apenas cinco, nasceu no cativeiro resultado das investidas do sequestrador contra a mãe.

O interessante, contudo, é que Jack é alheio a tudo isso. Como nasceu em cativeiro, a mãe fez com que ele acreditasse que o mundo todo era o quarto. Porém, gradativamente, ela percebe a necessidade de fugir de lá, ainda mais quando recebe algumas informações preocupantes.

(Spoiler) Acontece, então, o plano bem-sucedido de fuga em situações de alta intensidade. Essa segunda parte é tão interessante e angustiante quanto a primeira, pois mostra toda a adaptação dos dois ao “mundo real”. Enquanto Jack experimenta tudo novo, como tomar chuva, subir escadas e calçar tênis, por exemplo, a mãe é obrigada a reviver antigos fantasmas do passado.

Quarto é um livro com uma sensibilidade notável. Escrito em primeira pessoa, sob o olhar ingênuo e infantil de Jack, o leitor é premiado com uma obra original, autêntica e repleta de emoções fortes. Apesar de algumas partes ligeiramente cansativas, como aquela em que Jack fica descrevendo suas brincadeiras com a mãe (nada de anormal para uma história narrada por um garoto de cinco anos), o livro é uma grata surpresa para um leitor que busca fugir do comum.

 

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A biografia íntima de Leopoldina

LeopoldinaNas aulas de história nem sempre conseguimos aprender todo o contexto de determinado acontecimento e não conhecemos a fundo alguns personagens de certa relevância. A Independência do Brasil de Portugal, por exemplo, representou um grande momento para o nosso país e a atuação de Dom Pedro I e José Bonifácio recebem os seus devidos destaques nos livros e aulas. Porém, pouco se fala do papel importante da então princesa Leopoldina neste processo.

Em A biografia íntima de Leopoldina, de Marsilio Cassotti, temos a oportunidade de conhecer melhor esta personagem. Por meio de cartas e registros históricos, o autor traça a vida da arquiduquesa austríaca, desde a sua infância na Europa até a morte no Brasil.

Oriunda da importante Casa dos Habsburgo, Leopoldina cresceu na Áustria em meio a um turbilhão político. Sua tia-avó era Maria Antonieta, imperatriz da França que teve a cabeça decepada pela guilhotina na Revolução Francesa, e sua irmã mais próxima e confidente, Maria Luísa, casou-se com Napoleão Bonaparte.

Os registros de sua infância e adolescência retratam uma garota educada de forma tradicional, porém com explosões de temperamento difíceis de lidar – o que poderia ser um problema para uma mulher que assumisse uma posição importante. Outro assunto comum quando se trata de Leopoldina é a sua aparência física desleixada para os nobres padrões da época e sua silhueta avantajada.

Ao receber a notícia de que iria se casar com o filho primogênito do imperador de Portugal, a arquiduquesa demonstrou grande felicidade, mesmo sob a condição de que iria viver no Brasil, muito longe da Europa e “selvagem” para alguns.

Mesmo apaixonada e devota a Pedro, nos anos Leopoldina sofreu calada com a teimosia e os conhecidos casos extraconjugais do marido. Diferentemente de sua imagem pública polida e comportada, em suas cartas pessoais trocadas com confidentes, a austríaca sempre externava a sua insatisfação com o comportamento do marido e a tristeza de viver em um local tão longe de casa e dos entes queridos.

Contundo, Leopoldina manteve-se fiel aos ideais aos seus aprendizados e tornou-se uma grande articuladora da política brasileira nos bastidores. Auxiliou Pedro no combate às insurreições que visavam separar o país, já que muita gente queria sair da soberania portuguesa, e teve papel fundamental quando o marido foi a São Paulo acalmar os ânimos e acabou declarando a Independência, em 1822.

 A obra é ótima para os amantes de história. Com uma narrativa leve, porém complexa – devido à quantidade excessiva de nomes e títulos de nobreza –, é possível ter um retrato bem fiel da personalidade desta nobre austríaca que exerceu um papel fundamental na história no Brasil.

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Criança 44

criança44

*Colaboração especial de Abrahão de Oliveira

Em Criança 44 é feito um retrato da Rússia stanilista, dos abusos de poder, das milícias, dos gulags (campos de trabalho forçado da ex-União Soviética) e dos assassinos em série que assolaram a região e nunca foram pegos. Baseado nos terríveis atos cometidos por Andrei Chikatilo, o livro percorre um mapa de tristeza e sangue onde crianças são mortas de maneiras terríveis por todo o território russo.

Para se ter uma ideia, durante a trama, o autor Rob Smith fala sobre o Holomodor (também conhecido como “Holocausto Ucraniano”), a tomada da produção dos pequenos agricultores, das facilidades que pessoas em cargos mais altos tinham e, até mesmo, do abuso que a polícia da época fazia junto à população.

O leitor é conduzido por Liev Demidov, personagem que ocupa um alto cargo na milícia soviética e que, graças a uma tragédia que assola sua família, começa a ser investigado suspeito de traição ao mesmo tempo em que desconfia da existência de um assassino em série na Rússia, fato que seria inédito e acabaria com o sonho de “paraíso” que era propagado na época.

O livro é bom, tem uma narrativa agradável, mas não é ótimo. O desfecho poderia ser melhor trabalhado e desenvolvido. Mesmo assim, graças à trama complexa e os detalhes interessantes, Criança 44 consegue prender o leitor durante as suas mais de 400 páginas.

O filme homônimo baseado na obra, por sua vez, traz Tom Hardy e Gary Oldman no elenco, mas não convence. Com uma narrativa confusa e que necessita de total atenção dos espectadores, a película é fraca.

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